Costa, Marceliano. 15/03
Ao longo da história, o conhecimento humano foi construído por meio de perguntas, investigações e descobertas. A curiosidade sobre como o mundo funciona levou ao desenvolvimento da ciência, da filosofia e das artes. No entanto, em diferentes momentos da história, também surgiram atitudes e ideias que tentam impedir ou dificultar esse avanço do conhecimento. Esse fenômeno é conhecido como obscurantismo.
De forma simples, o obscurantismo pode ser entendido como a tentativa de impedir que as pessoas tenham acesso ao conhecimento ou questionem certas ideias. Em vez de incentivar a investigação e o pensamento crítico, o obscurantismo busca manter as pessoas na ignorância ou desencorajá-las a aprender e refletir sobre o mundo.
Isso não significa apenas falta de conhecimento. Muitas vezes, o obscurantismo envolve ações deliberadas para bloquear o acesso à informação, desacreditar cientistas ou espalhar dúvidas sobre descobertas científicas já bem estabelecidas.
A história da ciência apresenta vários exemplos em que novas ideias encontraram forte resistência. Um caso conhecido envolve o cientista italiano Galileo Galilei. No século XVII, Galileu defendeu a ideia de que a Terra gira em torno do Sol, posição conhecida como heliocentrismo. Essa ideia já havia sido proposta anteriormente por Nicolaus Copernicus, mas contrariava crenças amplamente aceitas na época.
Por causa disso, Galileu foi julgado pela Roman Inquisition e obrigado a negar publicamente suas ideias. Hoje sabemos que suas observações estavam corretas e que suas contribuições foram fundamentais para o desenvolvimento da astronomia e da física.
Outro exemplo marcante é o caso do filósofo e pensador Giordano Bruno, que foi condenado à morte no final do século XVI por defender ideias consideradas perigosas para a época, como a possibilidade de um universo infinito e com muitos mundos.
Esses episódios mostram que, em certos períodos, novas ideias científicas podem enfrentar resistência quando desafiam visões de mundo já estabelecidas.
Apesar das dificuldades, o avanço da ciência trouxe enormes benefícios para a humanidade. Graças à investigação científica, hoje temos vacinas, tecnologias de comunicação, sistemas de transporte mais eficientes e diversas formas de compreender melhor o universo.
A física, por exemplo, busca explicar as leis fundamentais da natureza. Estudos sobre eletricidade e magnetismo permitiram o desenvolvimento da energia elétrica e de muitos aparelhos que usamos no cotidiano. Pesquisas sobre movimento e forças ajudam a projetar pontes, carros e aviões com segurança.
A biologia contribui para o entendimento dos seres vivos, ajudando no combate a doenças e na preservação do meio ambiente. Já as ciências sociais analisam o funcionamento das sociedades humanas, ajudando a compreender fenômenos como desigualdade, cultura e organização política.
Quando essas áreas do conhecimento trabalham juntas, elas ajudam a construir soluções para problemas complexos e a melhorar a qualidade de vida das pessoas.
Mesmo com todos os avanços científicos, atitudes obscurantistas ainda podem aparecer na sociedade atual. Isso pode ocorrer, por exemplo, quando informações falsas são divulgadas para desacreditar pesquisas científicas ou quando pessoas são desencorajadas a aprender sobre determinados temas.
Em alguns casos, o obscurantismo também aparece quando o conhecimento é apresentado de forma confusa ou inacessível, dificultando que a maioria das pessoas compreenda certos assuntos importantes. Quando isso acontece, apenas pequenos grupos conseguem dominar determinadas informações, enquanto grande parte da população fica afastada do debate público.
Alguns estudiosos da educação, como Newton Duarte e Dermeval Saviani, analisam como esse tipo de fenômeno pode aparecer também nos debates sobre a escola e o currículo escolar.
Segundo esses autores, em determinados momentos surgem movimentos ou propostas que afirmam querer proteger a escola de influências ideológicas, mas que, na prática, podem acabar limitando discussões importantes dentro do ambiente escolar. Um exemplo citado nesses debates é o movimento Escola sem Partido, que ganhou visibilidade no Brasil ao defender que professores deveriam evitar abordar certos temas considerados políticos em sala de aula.
Críticos desse movimento argumentam que propostas desse tipo podem criar um ambiente de vigilância e censura sobre professores e conteúdos escolares. Em vez de incentivar o debate e a análise crítica, a escola passaria a evitar determinados assuntos por medo de punições ou denúncias.
Outro tema que aparece nesses debates é a chamada “ideologia de gênero”, expressão usada por alguns grupos para criticar ou rejeitar discussões sobre gênero e diversidade nas escolas. Para diversos pesquisadores da área de educação, impedir esse tipo de discussão pode significar limitar a reflexão sobre questões sociais importantes e reduzir o espaço de diálogo dentro da escola.
De acordo com a análise desses autores, quando movimentos sociais ou políticos tentam restringir o acesso a determinados conhecimentos ou impedir que certos temas sejam debatidos, isso pode ser entendido como uma forma de obscurantismo beligerante. O termo “beligerante” indica justamente uma atitude de confronto ou combate contra ideias, pesquisas ou discussões consideradas indesejáveis por determinados grupos.
Isso não significa que todos os debates educacionais sejam negativos ou que não possam existir opiniões diferentes sobre o que deve ser ensinado na escola. Pelo contrário: o debate público é parte importante de uma sociedade democrática. No entanto, quando o objetivo passa a ser impedir o acesso ao conhecimento ou restringir o pensamento crítico, a educação pode acabar sendo prejudicada.
Por isso, muitos educadores defendem que a escola deve continuar sendo um espaço de aprendizado, diálogo e reflexão. Ao permitir que os estudantes conheçam diferentes ideias, analisam evidências e desenvolvam pensamento crítico, a educação contribui para formar cidadãos capazes de compreender melhor o mundo em que vivem.
A escola tem um papel essencial no combate ao obscurantismo. Mais do que transmitir conteúdos, ela ajuda os estudantes a desenvolver pensamento crítico, ou seja, a capacidade de analisar informações, fazer perguntas e avaliar diferentes argumentos.
Ao estudar ciência, os alunos aprendem que o conhecimento não surge pronto. Ele é construído por meio de observações, experimentos e debates entre pesquisadores. Esse processo ensina que questionar, investigar e buscar evidências são partes importantes da construção do saber.
Além disso, a escola amplia o acesso ao conhecimento científico, cultural e artístico, permitindo que mais pessoas participem das discussões sobre o mundo em que vivem.
O obscurantismo representa uma tentativa de limitar o acesso ao conhecimento ou impedir que novas ideias sejam discutidas. Ao longo da história, muitas descobertas importantes enfrentaram resistência antes de serem aceitas.
Por outro lado, a ciência e a educação desempenham um papel fundamental no desenvolvimento das sociedades. Ao incentivar a curiosidade, a investigação e o pensamento crítico, elas ajudam a construir um mundo mais informado, capaz de enfrentar desafios e buscar soluções para os problemas da humanidade.
Por isso, fortalecer a educação e valorizar o conhecimento científico são passos importantes para que as sociedades continuem avançando.
Por que algumas novas ideias científicas enfrentam resistência quando são apresentadas à sociedade?
De que forma a escola pode ajudar os estudantes a desenvolver pensamento crítico e evitar a desinformação?
Você consegue pensar em exemplos atuais em que o conhecimento científico foi questionado ou contestado? O que podemos aprender com essas situações?
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